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O Livro de Jó
Introdução
O Livro de Jó trata do sofrimento humano. Jó era um homem bom, rico e feliz, mas Deus permitiu que, da noite para o dia, perdesse os filhos e tudo o que tinha e que fosse atacado por uma doença terrível. Depois Jó e os seus amigos conversam, em diálogos poéticos, procurando achar explicação para tanta desgraça. No fim Deus aparece e dá a resposta.
Pensava-se, naquele tempo, que o sofrimento é sempre resultado do pecado. Para os amigos de Jó, Deus sempre recompensa os bons e castiga os maus. Portanto, se Jó está sofrendo, é porque pecou, mesmo que tenha sido em segredo. Mas Jó reage contra essa explicação. Ele não entende como Deus deixou que tamanha desgraça caísse sobre ele, visto que sempre foi um homem bom e honesto. Nesse estado de angústia e de dúvida, Jó chega a desafiar a Deus. Ele exige uma explicação para que finalmente possa ser aceito por Deus e considerado pelos outros como um homem bom e correto.
E Deus tem a última palavra. Ele não responde às perguntas de Jó, mas fala do seu próprio poder e sabedoria. Humildemente Jó reconhece que ele não é nada diante de um Deus tão poderoso e sábio e se arrepende de haver usado palavras duras e violentas.
No final fica provado que Jó tinha razão e que os seus amigos estavam errados. Ele tinha toda a razão de rejeitar o modo de pensar dos seus amigos. E para Jó tudo vai melhor ainda do que no começo da história. Deus repreende os amigos de Jó por não haverem entendido a razão do seu sofrimento e por haverem defendido ideias erradas a respeito de Deus. Jó, ao contrário, mesmo com a sua impaciência, as suas reclamações e os seus
protestos, conservou a fé num Deus que é justo. Ele reconheceu que os seres humanos não podem compreender tudo, nem explicar bem a razão por que às vezes também os inocentes sofrem.
Esquema do conteúdo
1. Cena inicial: Jó é posto à prova (1.1—2.13)
a. Jó e a sua família (1.1-5)
b. Deus, Satanás e Jó (1.6—2.10)
c. Jó e os seus amigos (2.11-13)
2. Diálogos entre Jó e os seus amigos (3.1—37.24)
a. Queixa de Jó (3.1-26)
b. Primeiro diálogo (4.1—14.22)
c. Segundo diálogo (15.1—21.34)
d. Terceiro diálogo (22.1—27.23)
e. Elogio da sabedoria (28.1-28)
f. Defesa final de Jó (29.1—31.40)
g. As falas de Eliú (32.1—37.24)
3. Intervenção do Senhor e respostas de Jó (38.1—42.6)
a. Primeira resposta de Deus (38.1—40.2)
b. Primeira resposta de Jó (40.3-5)
c. Segunda resposta de Deus (40.6—41.34)
d. Última resposta de Jó (42.1-6)
4. Cena final (42.7-17)
a. Os três amigos de Jó (42.7-9)
b. Jó e a sua nova família (42.10-17)

  • Jó, 12

    JÓ RESPONDE A ZOFAR OBSERVEM A TERRA
    1-3 Jó respondeu: “Vocês falam como especialistas. Até parece que, quando morrerem, não sobrará ninguém para ensinar os outros a viver. Mas lembrem-se de que eu também penso — e vocês não são melhores que eu. Ora, não é preciso ser especialista para saber essas coisas!

    4-6 “Estou sendo ridicularizado pelos meus amigos, ‘Então esse é o homem que conversava com Deus!’. Ridicularizado sem piedade nem dó: ‘Vejam, o homem que nunca errou!’. É fácil para quem está no bem-bom acusar, para o próspero desprezar os que estão na pior. Os desonestos residem em segurança nas fortalezas, e os que insultam Deus vivem no luxo. Eles pagam um ídolo para receber proteção.”

    7-12 “Mas perguntem aos animais; deixem que ensinem vocês. Os pássaros podem dizer o que está acontecendo. Observem a terra — aprendam dela o básico. Ouçam: os peixes do mar dirão a vocês o que sabem. Não está claro que todos eles concordam em que Deus é soberano, e que tudo está em suas mãos: Cada alma vivente, cada criatura que respira? O ouvido distingue as palavras, assim como o paladar distingue as comidas. Vocês acham que os mais velhos detêm o monopólio da sabedoria, que é necessário ficar velho para entender a vida?”

    APRENDEMOS A VIVER COM DEUS
    13-25 “A verdadeira sabedoria e o poder legítimo pertencem a Deus: com ele aprendemos a viver e por que viver. Se ele derruba alguma coisa, é para valer; se ele prende alguém, não tem escape. Se ele retém a chuva, prevalece a seca; se ele libera a água, a tudo inunda. Poder e sucesso pertencem a Deus; tanto o enganado como o enganador devem responder a ele. Ele despe os especialistas de suas credenciais, expõe os juízes como tolos sem critério. Ele desnuda os reis das vestimentas luxuosas e amarra um trapo em volta de sua cintura. Ele despe os sacerdotes dos seus mantos e demite altos oficiais de seus cargos. Ele faz calar a voz dos sábios e dos anciãos tira o bom senso e a sabedoria. Ele despreza as “celebridades” e desarma o forte e o poderoso. Ele ilumina o que está escondido em lugares profundos e escuros e converte a densa escuridão na luz do meio-dia. Ele faz nações surgir e se extinguir, faz crescer um povo e dispersa-o. Ele tira a razão dos líderes do mundo e os faz andar por terras, sem rumo. Eles tateiam no escuro, cambaleando como bêbados.”

  • Jó, 11

    O CONSELHO DE ZOFAR A SABEDORIA DE VERDADE
    1-6 Foi a vez de Zofar, de Naamate, se pronunciar: “Que mundaréu de palavras! Não está na hora de pôr um fim nelas? Seria bom permitir esse discurso descabido? Acha que pode continuar falando, sem que digamos nada? Acha que vamos tolerar seus insultos e zombarias calados? Você alega: ‘Minha doutrina é perfeita e minha conduta impecável’. Ah, se Deus mostrasse uma fração da mente dele e dissesse o que pensa de você… Desejo que ele mostre a você o que é a sabedoria de verdade, pois a verdadeira sabedoria é bem cheia de complexidade. Mas esteja certo disto: você ainda não recebeu nem a metade do que merece!

    7-12 “Você acha que pode explicar os mistérios de Deus? Acha que pode traçar um perfil do Todo-poderoso? Deus é muito mais elevado que sua mente, mais profundo do que pode compreender. Ele se estende além dos horizontes da terra, é muito maior que todo oceano e mar. Se ele ordenar que o prendam, ou arrastá-lo para o tribunal, o que poderá fazer? Ele percebe de longe a mentira e reconhece a maldade a distância — a Deus ninguém engana! Assim, o ignorante só será sábio no dia em que a mula aprender a falar.”

    BUSQUE DEUS
    13-20 “Mas fique tranquilo: se você abrir o coração, pedir ajuda a Deus e pra ele estender as mãos, Se limpar das mãos o pecado e recusar-se a acolher o mal em casa, Você poderá encarar o mundo sem sentir vergonha e andar seguro sem medo nem culpa. Você se esquecerá das suas angústias: elas não passarão de vagas lembranças. O sol vai raiar e brilhar para você, e toda sombra será dispersa ao romper da manhã. Confiante de novo e cheio de esperança, você descansará. Olhará em volta e desfrutará toda segurança. Bem acomodado e sem grandes preocupações, você será procurado por muitos por causa de tanta bênção. Mas o ímpio não verá nada disso. Continuará descendo ladeira abaixo, sem ter pra onde ir, sem esperança, apenas a morte certa.”

  • Jó, 10

    ENCONTRANDO AGULHA NUM PALHEIRO
    1″Não suporto mais esta vida! Não aguento mais! Por isso, coloco tudo pra fora, sem guardar nada, toda queixa e amargura da minha alma.”

    2-7 Jó orou: “Vou apresentar o que está no meu coração: Deus, não me declares culpado sem permitir que eu saiba qual é a acusação. Tu mesmo me criaste e disseste que era ‘bom’, Então, por que me fazes passar por tanto sofrimento; rejeitas a quem moldaste com as próprias mãos e abençoas as maquinações do perverso? Não enxergas como nós, mortais. Será que olhas a aparência? Não estás limitado ao tempo, como nós. Tens toda a eternidade para realizar tuas obras. Então, por que tanto procuras em mim culpa e pecado, como se buscasse agulha no palheiro? Sabes que não sou culpado. Sabes também que ninguém pode me ajudar.

    8-12 “Tu me formaste como um vaso com tuas mãos mas agora vais me quebrar em pedacinhos? Lembras da bela obra que fizeste com o barro? Agora vais me reduzir a pó? Oh! A maravilhosa concepção: o encontro do masculino com o feminino! Que grande milagre: a pele e os ossos, o músculo e o cérebro! Tu me deste a vida — amor insondável! Acompanhaste de perto até o meu respirar.

    13-17 “Mas nunca me contaste esta parte da história. Nem imaginava que havia algo mais… Que, se eu desse um passo em falso, tu perceberias e não deixarias nada passar. Se sou mesmo culpado, estou perdido! Mas, se sou inocente, não é melhor — continuo perdido. No meu interior flui a amargura, estou totalmente mergulhado em aflição. Tento me defender da melhor maneira possível, mas tu és forte demais para mim — implacável como um leão à espreita — é impossível! Sempre encontras novas testemunhas contra mim. E tua ira só aumenta e se acumula sobre a minha dor.

    18-22 “Então, por que me fizeste nascer? Quem dera ninguém nunca tivesse me visto! Eu gostaria de jamais ter vivido, ter sido sepultado sem jamais ter respirado. Não poderia encerrar agora a discussão sobre minha vida? Poderias dar uma trégua para que possa sorrir por um momento, Antes que eu morra e seja sepultado, antes que esteja num caixão fechado, Banido, sem retorno, para a terra dos mortos, onde pela escuridão serei escondido?.”

  • Jó, 9

    JÓ CONTINUA COMO UM MERO MORTAL PODE SER REALMENTE JUSTO AOS OLHOS DE DEUS
    1-13 Jó recomeçou: “Então, o que há de novo? Eu sei de tudo isso. A questão é: ‘Como um mero mortal pode ser realmente justo aos olhos de Deus?’. Se quiséssemos apresentar nossa causa diante dele, ou argumentar, que chance teríamos? Nem uma em mil! A sabedoria de Deus é tão profunda, o poder de Deus é tão imenso! Quem poderia tentar resistir e ainda sair intacto? Ele faz tremer as montanhas antes que saibam o que está acontecendo, quando bem quiser, sacode-as e põe tudo de cabeça pra baixo. Ele pode chacoalhar a terra, até suas fundações são abaladas. Ele diz ao Sol: ‘Não brilhe!’, e ele para de brilhar; cobre a luz das estrelas. Sozinho, estende os céus e anda sobre as ondas do mar. Ele projetou a Grande Ursa Maior e o Órion, as Plêiades e o Cruzeiro do Sul. Jamais poderemos compreender toda essa grandeza; seus milagres surpreendentes não podem ser contados. Ele se move à minha frente, e não o vejo; sua presença silenciosa, mas real, não percebo. Se toma algo sem ser notado, quem poderia detê-lo? Quem vai dizer: ‘O que está fazendo?’ Quando ele está irado, nada o detém: até o maior e mais temível dos monstros se encolhe diante dele.

    14-20 “Desse modo, como posso discutir com ele? Como vou apresentar uma defesa diante de Deus? Ainda que eu seja inocente, nunca poderia argumentar; só posso me jogar a seu pés e pedir pela misericórdia do Juiz. Mesmo que eu apelasse para Deus e ele me respondesse, ainda não acreditaria que me ouviu. Assim, sou jogado de um lado para outro, e as feridas se multiplicam sem motivo, Nem mesmo posso retomar o fôlego, e o sofrimento só vai crescendo. Se é para ver quem é mais forte, ele vence brincando! Se for para a justiça, quem poderia intimá-lo? Ainda que eu seja inocente, tudo que eu disser me incriminará. Mesmo que eu não tenha culpa nenhuma, defender-me de nada adiantará.

    SE ELE NÃO É O RESPONSÁVEL, ENTÃO QUEM É
    21-24 “Acreditem em mim, sou inocente! Não consigo entender o que acontece. De que vale a vida? Dá tudo na mesma! Não há diferença nenhuma! Pois Deus destrói tanto o que é mau como o que é bom e honesto. Quando a calamidade ataca e traz morte repentina, ele cruza os braços, insensível ao desespero do inocente. Ele permite que o ímpio assuma o controle do mundo, designa juízes que não discernem o certo do errado. Se ele não é o responsável, então quem é?

    25-31 “Meu tempo é curto — o que resta da minha vida se esvai tão rápido que nem pude contemplar a alegria. Minha vida está indo r damente, como um navio veloz, como uma águia que mergulha para capturar sua vítima. Ainda que eu diga: ‘Vou ignorar tudo isso, vou olhar apenas para o lado bom e me esforçar para manter o sorriso’, Todas essas desgraças ainda me devorarão por dentro, pois sei que não terei alívio nem paz. Já anunciaram o veredito: ‘Culpado!’, — de que servirão os protestos? Ainda que eu me esfregasse todo e me lavasse com o melhor sabão que encontrasse, Eu seria empurrado para dentro de um poço sem fundo, até o cheiro ficar insuportável.

    32-35 “Deus não é homem que nem eu. Ele não é um igual, para que eu o enfrente no tribunal. Como eu gostaria que existisse um árbitro, que servisse de mediador, Que pudesse quebrar a força mortal de Deus sobre mim, e me libertar deste terror para eu poder respirar outra vez. Então, ergueria a voz e apresentaria meu caso corajosamente. Mas, como as coisas estão, não há nenhuma chance.”

  • Jó, 8

    A RESPOSTA DE BILDADE SERÁ QUE DEUS COMETE ERROS
    1-7 A Bildade, de Suá, começou a falar: “Até quando você vai continuar falando desse jeito? Está dizendo tolices, bobagens sem tamanho. Será que Deus comete erros? O Todo-poderoso, por acaso, deixa escapar alguma coisa? É claro que seus filhos pecaram contra ele — se não, por que Deus os teria punido? Saiba o que você deve fazer: ajoelhe-se diante do Todo-poderoso. Se você é tão inocente e justo como diz — não é tarde demais —, ele virá correndo e acertará as coisas de novo, restabelecerá tudo. Ainda que você não acredite nisso agora, você estará melhor do que jamais esteve antes.”

    A VIDA POR UM FIO
    8-19 “Apresente a questão aos nossos antepassados, estude o que eles aprenderam dos seus ancestrais. Temos muito a aprender, pois somos recém-chegados, e a vida é tão passageira que nem tempo nós temos. Então, por que não deixar que os antepassados nos ensinem a sua sabedoria? E que nos instruam no que conhecem por experiência? Podem as mangueiras crescer sem solo? Podem os deliciosos tomates existir sem água? As flores não são lindas antes de colhidas? Mas sem solo ou água murcham mais rápido que a grama. Isto é o que acontece com quem se esquece de Deus: sua esperança não dá em nada. A vida dele está por um fio, pois toda confiança está em coisas frágeis como a teia de aranha. Uma sacudida, e o fio se rompe; Tenta se agarrar a ela, e o fio cede. Ou são como espinheiros que brotam à luz do dia, invadindo o jardim, Esparramam-se para todo lado, estragando as flores, e agarram-se até mesmo nas rochas. Mas, quando o jardineiro os arranca pela raiz, o jardim nem sequer nota sua falta. Quanto antes o perverso for embora, melhor: assim a boa planta pode crescer em seu lugar.

    20-22 “Não há como Deus rejeitar quem é bom, e, com certeza, não ajuda o que é mau. Deus fará você rir de novo, você ainda vai pular de alegria! Seu inimigo vai se dar mal, e ele verá seu castelo de cartas desmoronar.”

  • Jó, 7

    MINHA VIDA NÃO VALE NADA
    1-6 “A vida não é uma luta? Não é como estar debaixo de uma escravidão dura? Como os trabalhadores do campo que esperam ansiosos o fim do dia, como os que não têm nada a esperar senão o dia do pagamento, Estou entregue a uma vida que vagueia e não chega a lugar nenhum — meses de engano, noites de aflição e desgraça! Vou para a cama e penso: ‘Quanto tempo até a hora de levantar?’ E eu me debato na cama a noite toda — não aguento mais! Meu corpo está coberto de vermes e cascas de feridas, minha pele, escamosa e dura, o pus não para de vazar. Meus dias passam mais rápido que as mãos do mais hábil tecelão, prosseguem até o fim — sem esperança!

    7-10 “Deus, não esqueça que sou apenas um sopro! Estes olhos viram pela última vez a bondade. E vocês já viram meu fim; continuem olhando, mas não restará nada para ver. Como uma nuvem evapora e para sempre desaparece, os que vão para a sepultura jamais retornam. Para a família jamais irão voltar; os amigos, nunca mais irão encontrar.

    11-16 “E, assim, não vou ficar calado, vou dizer em alto e bom som; minha queixa contra o céu é muito amarga, mas honesta. Querem pôr em mim uma mordaça, como quem deseja que simplesmente a tempestade pare e o mar se acalme. Quando penso: ‘Vou para a cama, e quem sabe, eu melhore. Ou um cochilo me fará bem’, Surgem pesadelos para me assustar e visões de apavorar! Preferiria ser enforcado e morrer a continuar desse jeito viver. Eu desprezo esta vida! Quem precisa disso? Deixem-me sozinho! Minha vida não vale nada — não passa de fumaça.

    17-21 “O que são os mortais, para que te importes com eles e gastes com eles parte do teu dia? Para que venhas, toda manhã, saber como estão? Nunca deixarás de olhar para mim? Não me deixarás só, nem para que eu respire? Mesmo tendo pecado, como isso pode ferir-te, se és maior que tudo, responsável por todos os homens? Por que me tornei o teu mais importante alvo? Por que simplesmente não perdoas meus pecados e começas do zero comigo? Do modo que as coisas vão, logo estarei morto. Olharás para cima e para baixo, mas já não estarei por perto.”

  • Jó, 6

    JÓ RESPONDE A ELIFAZ DEUS DESPEJOU TUDO EM CIMA DE MIM
    1-7 Jó respondeu: “Se minha aflição pudesse ser pesada, se pudesse empilhar toda carga de amargura, Seria mais pesada que toda a areia do mar! Não é de espantar que eu esteja berrando como um animal que vai para o abate! As flechas do Todo-poderoso estão cravadas em mim e tive de suportar todo veneno. Ele despejou tudo em cima de mim. Jumentos zurram e vacas mugem quando ficam sem pastagem, por isso não espere que eu fique quieto. Você vê o que Deus fez comigo? O sofrimento é tanto que não consigo comer nada. Perdi o apetite, meu estômago está embrulhado, sinto-me totalmente rejeitado.”

    ALÉM DOS MEUS LIMITES
    8-13 “Tudo que desejo é resposta a uma oração, um último pedido a ser honrado: Se ao menos Deus me esmagasse e acabasse comigo de vez, Teria, ao menos, a satisfação de não blasfemar contra o Deus Santo, antes que além dos meus limites eu seja levado. Onde está a força para manter viva a minha esperança? Que futuro tenho, que me faça querer continuar? Acha que sou resistente como pedra? Acha que sou de ferro? Acha que posso me erguer por mim mesmo? Ah! Não me restou força nenhuma.”

    MEUS “AMIGOS”
    14-23 “Alguém desesperado pelos amigos deveria ser amparado, mesmo que desistisse de confiar no Todo-poderoso, Mas meus irmãos são como ribeiros no deserto: num dia, estão cheios de água Do gelo e da neve derretidos que desceram das montanhas. Mas no meio do verão estão secos, apenas uma cratera ressecada pelo sol. Os viajantes o avistam e saem de sua rota, pensando que vão matar a sede, mas só encontram um buraco sem água e morrem de garganta seca. As caravanas dos mercadores de Temã esperam achar água, os turistas de Sebá anseiam por uma bebida fresca. Eles se aproximam esperançosos — mas que decepção! Quando chegam, dão de cara com a terra seca! E vocês, meus “amigos”, não são melhores — vocês não ajudaram em nada! Vocês veem a minha situação e só o que fazem é se encolher de medo. Não que eu tivesse pedido algo — não pedi nem mesmo um tostão furado, Nem implorei que fizessem algum sacrifício por minha causa. Então, por que tantos sofismas e palavras evasivas?

    24-27 “Mostrem-me algo incontestável, e me calarei; se tanto sabem, digam-me onde errei. A verdade pode doer, mas vocês têm coragem de dar uma de santo pra cima de mim? Vocês apontam o que há de errado em minha vida, mas respondem à minha angústia com conversa fiada. São as pessoas meros objetos para vocês? São os amigos como mercadorias?”

    28-30 “Olhem-me nos olhos! Por que eu mentiria a vocês? Não sejam injustos — agora sem palavras dúbias, pensem com cuidado — minha integridade está em jogo! Conseguem detectar falsidade no que digo? Não acham que sou capaz de discernir o bem do mal?”

  • Jó, 5

    NÃO CULPE A SORTE QUANDO AS COISAS VÃO MAL
    1-7 “Peça ajuda, Jó, se acha que alguém responderá! A qual dos santos anjos você recorrerá? O ressentimento do insensato é o que o mata; a ira invejosa do inconsequente é o que o desgraça. Eu mesmo vi — o irresponsável que lançou alicerces, e, de repente, sua casa foi amaldiçoada. Seus filhos estão do lado de fora, no frio, maltratados e explorados, e não há ninguém para defendê-los. Famintos moradores de rua saqueiam suas colheitas: esvaziam o campo, levando até os espinhos, insatisfeitos com o que têm. Não culpe a sorte quando as coisas vão mal — a desgraça não vem do nada. Os mortais nascem para a desgraça, tão certo quanto as faíscas voam para cima.”

    É UMA BÊNÇÃO RECEBER CORREÇÃO DE DEUS
    8-16 “Se eu fosse você, correria para Deus e me atiraria em seus braços de misericórdia. Pois ele é grandioso e seus feitos são inefáveis; não há limite para os seus milagres. Ele dá a chuva sobre a vasta terra, envia a água que rega os campos. Ele levanta o humilde, dá segurança ao aflito. Ele desfaz os planos do astuto, que não alcança o resultado pretendido. Ele apanha o espertinho em sua própria trama — seus planos são varridos como lixo. Fica desorientado como se fosse lançado na escuridão; não enxerga nem para pôr um pé na frente do outro. Mas Deus salva o oprimido das conspirações de morte e do punho de ferro. Assim, o pobre tem esperança, enquanto a injustiça é completamente destruída.

    17-19 “Como é abençoado aquele que Deus corrige! Preste atenção, não despreze a disciplina do Todo-poderoso! É verdade: ele fere, mas também cuida da ferida; ele fere, mas sua mão também traz cura. Ele o livra de um desastre atrás do outro; não importa a calamidade, o mal não alcançará você.

    20-26 “Na calamidade, não permitirá que a fome o atinja; na guerra, não será traspassado pela espada. Você será protegido dos comentários maldosos e viverá sem medo diante da catástrofe. Você não se preocupará com o desastre nem com a fome e andará sem medo no meio de animais selvagens. Você se dará bem com pedras e montanhas, e os animais selvagens se tornarão bons amigos. Você saberá que seu lugar na terra é seguro; olhará para seus bens e não achará falta de nada. Você verá seus filhos crescerem e se tornarem numerosos; terá uma linda família que crescerá como a grama do campo. Você terá vida longa e será como o grão dourado que é colhido no tempo devido.

    27 “Assim são as coisas — provado e comprovado! Por isso, ouça; para o seu bem, siga o meu conselho.”

  • Jó, 4

    ELIFAZ DISCURSA – AGORA É A SUA VEZ JÓ
    1-6 Então, Elifaz, de Temã, respondeu: “Você se importaria se eu dissesse algo? Em tais circunstâncias, é difícil ficar calado. Você mesmo fez isso muitas vezes, disse palavras que esclareceram e animaram os que estavam a ponto de desistir. Suas palavras deram firmeza aos que cambaleavam e nova esperança a quem estava à beira de um colapso. Mas agora que é com você fica desanimado. Quando você é atingido, fica aflito. Sua vida devota não deveria dar confiança a você? Sua vida exemplar não deveria dar esperança a você?

    7-11 “Pare e pense! Algum inocente de verdade já acabou em desgraça? Ou alguém realmente íntegro se perdeu no final? Pois vejo que aqueles que cultivam o mal e semeiam a desgraça colhem exatamente isso! Um sopro de Deus, e eles caem; uma rajada de sua ira, e não sobra nada deles! Até o poderoso leão, rei dos animais, que tem um rugido apavorante, é inútil sem dentes. Pois, sem dentes, ficam sem presa e os filhotes vão ter de lutar pela própria subsistência.

    12-16 “Uma palavra veio a mim em segredo — como um sussurro chegou aos meus ouvidos. Veio certa noite num sonho assustador, depois que caí em sono profundo. O medo e o terror me encararam. Estremeci da cabeça aos pés e o temor me dominou. Um espírito estava ali e fez arrepiar os meus cabelos. Não sei descrever o que apareceu ali — era um vulto diante de mim e em meio ao silêncio uma voz abafada ouvi:

    17-21 “‘Como um mero mortal poderia ser mais justo que Deus? Como o homem pode ser mais puro que seu Criador? Por que, se Deus não confiou nem mesmo em seus servos, nem mesmo aplaudiu seus anjos, Quanto mais em seres feitos de barro, mais frágeis que uma traça, Que vive hoje e desaparece amanhã, e ninguém percebe, pois some sem deixar rastro. Assim como quando as estacas da tenda são serradas a tenda desmorona, morremos e não somos mais sábios por ter vivido.

  • Jó, 3

    O GRITO DE JÓ QUAL O SENTIDO DA VIDA
    1-2 Finalmente, Jó quebrou o silêncio. Em voz alta, amaldiçoou a si mesmo:

    3-10 “Apaguem o dia em que nasci. Esqueçam a noite em que fui concebido! Que aquele dia seja transformado em trevas, e que Deus, lá em cima, esqueça o que aconteceu. Apaguem-no dos livros! Que a escuridão mais sombria se apodere do dia do meu nascimento, seja envolto pela neblina e engolido pela noite. Que as trevas dominem a noite em que fui concebido. Risquem-na do calendário, e que nunca mais seja contada como qualquer outro dia! Que aquela noite seja reduzida a nada. Que nenhum grito de alegria daquela noite jamais seja ouvido. Que os mestres em maldição amaldiçoem aquele dia. Que seja engolido pelo monstro do mar, o Leviatã. Que suas estrelas da manhã percam o brilho, e fiquem à espera da luz do dia que nunca vem! Que nunca mais vejam a luz do amanhecer, Porque não impediu que eu saísse do ventre da minha mãe, que eu vivesse esta vida cheia de aflições.

    11-19 “Por que não morri ao nascer, expirando ao sair do ventre materno? Por que havia braços para me embalar e seios para me alimentar? Eu poderia agora descansar em paz, dormir para sempre sem sentir dores, Ao lado de reis e autoridades em ruínas, ou, ainda, com poderosos cheios de ouro e prata. Por que não fui enterrado assim que nasci, como um bebê abortado que nunca viu a luz? Lá, o perverso não incomoda mais e os cansados têm enfim o merecido descanso. Lá, os prisioneiros dormem tranquilos, não acordam mais com o barulho dos guardas. Ricos e pobres, simples e poderosos estão ali, e os escravos estão livres dos seus senhores.

    20-23 “Por que Deus se importa em dar luz ao miserável? Por que deixa viver uma pessoa cheia de amargura, Os que desejam desesperadamente a morte e não conseguem, os que a procuram mais que o maior tesouro do mundo, Que consideram o dia de sua morte o dia mais feliz da vida? Qual o sentido da vida quando ela já não faz mais sentido? Por que Deus permite que vivamos, se fechou todas as saídas?

    24-26 “Em vez de comida, só me vêm lágrimas; em vez de água para beber, servem-me gemidos de angústia. O pior dos meus medos tornou-se realidade; o que eu mais temia aconteceu. Meu repouso é perturbado, e minha paz está destruída. Nenhum descanso me restou — a morte invadiu a vida.”